Sustentabilidade econômica: Mercosul Financeiro debate transição para economia mais inclusiva e zero carbono

Bancos centrais se unem ante oportunidades e formas de atuação a fim de contribuir para a sustentabilidade econômica e a estabilidade financeira do bloco.
Sustentabilidade econômica: Mercosul Financeiro debate transição para economia mais inclusiva e zero carbono
Data
Autor
Equipe Propague
Produto
Compartilhar

É crescente a percepção internacional de que riscos climáticos, sociais e ambientais podem afetar os sistemas financeiros de forma bastante adversa. Nesse sentido, a discussão sobre a transição para uma economia mais inclusiva e zero carbono, assim como os custos atrelados a esse processo, ganha cada vez mais corpo no âmbito dos reguladores financeiros de diversos países. No contexto sul-americano não poderia ser diferente. Tanto é assim que as oportunidades e formas de atuação dos bancos centrais no sentido de contribuir para a sustentabilidade econômica pautaram o “Seminário Sustentabilidade” no 50º Ciclo de Reuniões do Mercosul Financeiro”, promovido pelo Banco Central (BC) do Brasil.

“Riscos sociais, ambientais e climáticos podem afetar a estabilidade de preços e a estabilidade financeira, que são o coração da missão dos bancos centrais”, declarou a diretora de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do BC, Fernanda Guardado, ao destacar a importância da agenda de sustentabilidade no Brasil e no seu relacionamento internacional.

Tais riscos, disse ela, podem afetar as taxas de inflação, impactadas pelos efeitos sobre os setores da agricultura a da geração de energia, impondo desafios para a condução da política monetária. “No longo prazo, esses choques ambientais e climáticos podem ter consequências duradouras sobre a economia, afetando a produtividade, o crescimento econômico e quiçá até a taxa de juros neutra da economia”, justificou. “Por isso, como reguladores e supervisores precisamos avaliar as vulnerabilidades do sistema financeiro aos choques climáticos que podem ensejar mudanças abruptas de preços, perdas financeiras para o sistema e aumentos dos impactos desses choques sobre a economia real”, afirmou.

Nesse sentido, ela recordou o pilar da sustentabilidade da Agenda BC#, lançado em setembro de 2020. Conforme disse, a Agenda BC# Sustentabilidade coordena as ações do BC nessa área e um grande marco é o lançamento do Relatório de Riscos e Oportunidade Sociais, Ambientais e Climáticas do BC, que ocorreu em setembro deste ano.

Com relação às políticas para a sustentabilidade econômica promovidas pelo BC brasileiro, e que constam do documento, Guardado destacou a implementação de uma linha financeira de liquidez sustentável, prevista para vigorar a partir de novembro e a inclusão de critérios de sustentabilidade para seleção de contrapartes e investimentos na gestão das reservas internacionais, cuja conclusão deve ocorrer em dezembro de 2021. Além disso, ela disse que também está prevista para o último mês do ano, a criação do Bureau de Crédito Rural Sustentável, que segundo ela, será “um passo importante para o desenvolvimento de mercado de títulos verdes no Brasil.

Coordenação global para a sustentabilidade econômica

Guardado também chamou a atenção para as parcerias feitas pelo BC com reguladores e organismos internacionais, a fim de traçar diretrizes para enfrentar as mudanças climáticas. “Mudanças climáticas são um desafio de coordenação global. Nosso sucesso está creditado na colaboração da comunidade internacional, na troca de experiências e conhecimentos e acerca das melhores práticas e da melhoria da análise de dados sobre riscos específicos”, enfatizou ao recordar os memorandos de entendimento assinados pela autoridade monetária brasileira, citados no relatório.

“Ainda no âmbito das parcerias, o BC apresentou uma pesquisa sobre sustentabilidade no fórum da reunião de presidentes de bancos centrais da América do Sul, ocorrida no início de outubro. Ficamos muito satisfeitos com o fato de que autoridades monetárias regulatórias e de supervisão dos oito países consultados na pesquisa declararam compromisso público com a agenda da sustentabilidade e seis deles disseram que pretendem mapear a exposição de seus sistemas financeiros aos riscos climáticos”, complementou. Porém, relatou, os maiores desafios citados pelos países têm sido a disponibilidade de dados confiáveis e comparáveis, a necessidade de definição de uma taxonomia efetiva desses riscos, ou seja, a organização e classificação em categorias, assim como a cooperação internacional.

Economia zero carbono e o papel do setor financeiro

Na direção de alcançar a sustentabilidade econômica em escala global, a urgência da transição para uma economia zero carbono também foi outra questão levantada pelos participantes do Seminário Sustentabilidade no 50º Ciclo de Reuniões do Mercosul Financeiro. Nesse ponto, expôs o diretor-geral adjunto do Banco de Compensações Internacional (BIS, na sigla em inglês), Luiz Awazu Pereira, “o setor financeiro cumpre um papel fundamental”.

“A transição para uma economia zero carbono é urgente. No entanto, não podemos esquecer que terá custos sociais e econômicos elevados. Por conta disso, é um processo que exige planejamento e a implantação de políticas públicas e o setor financeiro tem um papel-chave a cumprir, coordenando corretamente suas ações com essas políticas e os apoios dos setores público e privado”, salientou.

Conforme disse, em todo o mundo observa-se fenômenos metrológicos devastadores, sendo os riscos climáticos eminentes e reais para a sustentabilidade econômica. “Perdas econômicas relacionadas com esses fenômenos podem se reverter em outras perdas sistêmicas e em sérios problemas para os mercados financeiros. De modo que teremos consequências devastadoras para a sociedade gerando mais do que perdas financeiras ou ameaças à estabilidade financeira mundial. Na verdade, isso pode colocar em perigo a vida do planeta”, alertou.

Portanto, reforçou o executivo do BIS, é urgente e atual tratar os riscos atrelados ao clima, que nascem da sua dimensão e de seu caráter assimétrico e irreversível. “As mudanças climáticas afetam de forma desproporcional não só os países mais pobres, mas também os lares mais pobres. Na medida em que as políticas para mitigação da mudança climática podem ter efeitos sociais regressivos a curto prazo, antes que se materializem os benefícios a longo prazo. Portanto, me parece importante pensar como essas políticas podem vir acompanhadas de outras medidas, como medidas de compensação, transferência de renda e de oportunidades de emprego a fim de apoiar os grupos mais vulneráveis”, justificou.

Conforme disse, “não é um processo que vai se corrigir sozinho. Assim, precisamos garantir hoje as políticas de mitigação”, afirmou. Para ele, financiar a transição para uma economia sustentável e zero carbono abre espaço para que a recuperação pós-pandemia seja muito mais sustentável e inclusiva e que possa contribuir para potencializar a inovação por meio de investimentos maciços em novas tecnologias e energias alternativas contribuindo com benefícios para tanto para as gerações presentes e futuras.

“Essa transição requer também novas formas de mobilização de recursos de investimento, como fundos de investimentos públicos e privados que disponibilizariam recursos para os países desenvolvidos e em desenvolvimento, a fim de complementar os esforços dos bancos de desenvolvimento nacionais, regionais e multilaterais, juntamente com todo o setor financeiro privado também”, disse. “O fato é que a luta contra as mudanças climáticas é a maior de todas as reformas estruturais do nosso tempo e sabemos que esse tipo de reforma tem importante consequência redistributiva”, concluiu.

Economia sustentável: os bancos centrais e os riscos ESG

Assim como Pereira, do BIS, a vice-presidente do Banco da Espanha, Margarita Delgado, que falou da experiência do papel dos bancos centrais europeus com relação aos riscos ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança), também destacou a necessidade urgente de as entidades regulatórias dos sistemas financeiros atuarem, a fim de frear o aquecimento global e caminhar para uma economia neutra em carbono.

“As entidades financeiras não estão alheias à questão da sustentabilidade econômica. O sistema financeiro é chave para canalização de recursos que nutrem a economia real e para que qualquer disrupção produzida na economia afete menos a estabilidade do sistema financeiro e vice-versa. Não restam dúvidas de que os riscos climáticos são o novo elemento que devemos ter em conta”, destacou.

Como exemplo, ela mostrou os resultados de um estudo do Banco Central Europeu que diz que mais de 60% das empresas espanholas estão expostas a riscos físicos como estiagens e incêndios; e 80% delas estariam sujeitas a riscos de transição para uma economia sustentável por conta de sua atual dependência à emissão de carbono.

De acordo com Delgado, algumas medidas já estão bem encaminhadas, como a proposta que a autoridade monetária europeia apresentou, em julho de 2021, de um plano para incluir considerações sobre mudanças climáticas na estratégia de política monetária do bloco.

Além disso, tendo em conta a mitigação dos riscos sociais inerentes à transição para uma economia zero carbono, Delgado disse ainda que serão importantes os programas que tornem as moradias mais sustentáveis e que ajudem pequenas e médias empresas durante a transição. “E os bancos têm uma posição privilegiada por poderem financiar investimentos sociais, como acesso à moradia e outros serviços básicos, podendo ser facilitadores de toda essa transformação”, finalizou.

O que é o Mercosul Financeiro

O Mercosul Financeiro é, na verdade, o nome dado ao Subgrupo de Trabalho (SGT-4), um fórum técnico, existente desde 1990, integrado por servidores de bancos centrais, reguladores e supervisores dos diferentes tipos de serviços financeiros pertencentes aos países do bloco econômico composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Responsável pelo trabalho de integração financeira no Mercosul, a coordenação nesse período está a cargo do Banco Central do Brasil. Os ciclos de reuniões acontecem a cada seis meses.

Veja ainda:

Todos os produtos

Quer se
aprofundar mais?

Com uma linguagem simples de entender, as análises do Instituto Propague vão te deixar por dentro dos principais temas do mercado.

Leia agora!