Mudança climática: como os bancos centrais calculam impacto nas finanças?

Mudança climática: como os bancos centrais calculam impacto nas finanças?

Bancos centrais adaptam os testes de estresse financeiro para prevenir crises financeiras causadas pela mudança climática e políticas para contornar o aquecimento global.

De furacões no Caribe às enchentes na Europa, os efeitos da mudança climática estão cada vez claros e preocupam policy-makers. Nesse cenário, alguns bancos centrais e outros supervisores do setor financeiro como o Fundo Monetário Internacional (FMI) estão tentando calcular os possíveis impactos dos riscos climáticos para as instituições financeiras e para o sistema financeiro como um todo.

O Instituto de Estabilidade Financeira do Banco de Compensações Internacionais (BIS), órgão responsável por monitorar o sistema financeiro internacional e prevenir crises, acaba de publicar uma análise sobre três dessas tentativas realizadas pelos bancos centrais dos Países Baixos, da França e do Reino Unido.

Os riscos da mudança climática para o sistema financeiro têm duas origens: as consequências de desastres naturais provocadas pelo próprio aquecimento global e os efeitos econômicos das políticas adotadas pelos governos para combatê-lo.

No caso de desastres naturais ou da gradual elevação no nível do mar, é possível que propriedades imobiliárias se desvalorizem de uma hora para outra, o que poderia afetar a carteira de ativos de muitos bancos, seguradoras e outras instituições financeiras, por exemplo.

Já os efeitos das políticas de combate ao aquecimento global, como a estratégia Fit to 55 anunciada no Parlamento Europeu recentemente, podem ter impactos bruscos no faturamento e no nível de emprego de indústrias chave, especialmente associadas à energia de fontes não renováveis, construção e transportes.

Supervisores adaptam os testes de estresse financeiro para avaliar risco da mudança climática

Os estudos são adaptações dos chamados testes de estresse financeiro ou stress-testing: em modelos computacionais construídos com as informações detalhadas sobre os portfólios das instituições financeiras, os supervisores simulam choques que poderiam acontecer em situações extremas e avaliam como esses choques podem se disseminar por todo o sistema financeiro.

Essa é uma tática adotada para evitar a ocorrência de crises financeiras, e, como resultado, os supervisores podem solicitar que as instituições com alguma fragilidade identificada ajustem seus portfólios.

“À medida que a sociedade se prepara para o possível caos que as alterações climáticas poderiam provocar, é crucial avaliar a gama de choques que a economia talvez tenha que enfrentar em breve” escreveu Tobias Adrian, Conselheiro Financeiro e Diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais (MCM) do FMI no Valor Econômico em 2020.

“Acrescentar fatores relacionados ao clima e à atual metodologia de testes de estresse ajudaria os dirigentes públicos e líderes do setor privado a se preparar para a ampla gama de possíveis choques financeiros que as ameaças climáticas poderiam desencadear”, explicou o Conselheiro do FMI.

Resultados preliminares apontam para impactos consideráveis do clima para o setor financeiro

O De Nederlandsche Bank (DNB), o banco central dos Países Baixos, realizou o primeiro teste de estresse climático em 2018 considerando os efeitos que os esforços de transição para uma economia de baixo carbono representariam para as instituições financeiras holandesas em um intervalo de 5 anos. Enquanto bancos poderiam sofrer uma perda de 1% a 3% dos ativos totais no teste, as perdas poderiam ficar entre 2-11% para seguradoras e 7%-10% para fundos de pensão.

Já o Banque de France estimou o impacto da mudança climática sobre as instituições financeiras na França até 2050, considerado moderado. Segundo o banco, isto se deu porque a carteira das instituições francesas não têm uma dependência forte das indústrias mais afetadas pela transição climática e pelo fato de a França estar em uma região geográfica onde se projeta menor incidência de futuros desastres climáticos em comparação com outros países, a exemplo dos Estados Unidos. Mesmo assim, o estudo avalia que no intervalo de 30 anos até 2050, o custo dos sinistros para bancos e seguradoras pode se multiplicar de 5 a 6 vezes.

Diferentemente dos testes de estresse tradicionais, os testes de estresse climáticos não resultaram em requerimentos de solvência das instituições financeiras individualmente, até o momento. Segundo a avaliação do BIS, o grau de incerteza sobre os dados e hipóteses nos estudos não justificam medidas compulsórias desse tipo.

No entanto, o teste pode resultar em comunicações individuais para ajudar as instituições a ajustarem suas metodologias de gerenciamento de risco e suas posições financeiras a fim de mitigar as potenciais perdas em decorrência da mudança climática.

“As instituições bancárias e seguradoras devem aprofundar desde já suas ações em favor da luta contra a mudança climática, integrando os riscos induzidos por esta última em seu processo de avaliação de riscos financeiros, pois são estas ações que contribuirão para mudanças observáveis a médio e longo prazo. Esta melhor consideração do risco da mudança climática é de fato necessária para promover uma melhor alocação de recursos e assegurar o financiamento da transição” diz o relatório do banco central francês.

Falta de informações e incerteza são a principal barreira

Na comparação dos três testes de estresse climático sobre o sistema financeiro, destacam-se quatro desafios gerais a serem enfrentados pelos BCs, na avaliação dos economistas do BIS:

Disponibilidade de dados confiáveis

Ainda não há fontes confiáveis de dados sobre o grau de exposição das instituições financeiras, seguradoras e outras empresas do ramo aos riscos climáticos. Nem todas as instituições monitoram esses indicadores, e, mais importante, é necessário harmonizar a forma de coletar e reportar esses dados.

No Brasil, o Banco Central lançou em abril deste ano uma proposta de requisitos para divulgação de informações sobre os aspectos sociais, ambientais e climáticos aplicáveis às instituições sob supervisão no Sistema Financeiro Nacional.

Análises em um horizonte de tempo muito longo

A segunda principal dificuldade para os supervisores financeiros é adaptar os modelos de previsão dos testes de estresse financeiro, que normalmente têm um curto prazo, para o prazo de algumas décadas ao longo do qual devemos sentir mais efeitos da mudança climática.

Como conciliar os dois tempos de análise na rotina de gerenciamento de risco dos bancos centrais ainda é uma questão em aberto.

Incerteza sobre a trajetória dos desastres climáticos no futuro

Existem algumas bases de dados, construídas por especialistas do clima, que estimam a ocorrência de desastres causados pela mudança climática: quando devem ocorrer, onde, qual a intensidade esperada. Contudo, essas projeções são feitas com base no histórico das variáveis climáticas que conseguimos observar no passado: a trajetória da temperatura, do nível dos oceanos, dos gases na atmosfera, etc.

O problema é que no futuro essas trajetórias podem se acelerar, ou não. Pela natureza desconhecida da mudança climática, os cientistas não têm segurança para garantir que suas previsões futuras são precisas. Com isso, as estimativas dos riscos físicos do aquecimento global para o setor financeiro também ficam incertas.

Incerteza sobre os riscos de transição

Além da dificuldade para medir os riscos físicos da alteração no clima para o sistema financeiro, também há um grau de incerteza por parte dos bancos centrais sobre quais serão as medidas implementadas pelos governos para contornar o aquecimento global.

A maioria dos países realizou compromissos para reduzir a emissão de gases estufa no Acordo de Paris, mas segundo a Agência Internacional de Energia, apenas 2% dos gastos públicos com a recuperação econômica após a crise da Covid-19 foi direcionado para investimentos em energias limpas. Contra o relógio, os governos podem acabar tomando iniciativas mais drásticas, com maiores riscos de transição – ou podem seguir as políticas atuais, arriscando a incidência de desastres naturais mais graves.

Assim, se bem existem informações suficientes para estimar como um choque de política econômica vai se dissipar pelos diferentes setores da economia e se refletir na carteira de bancos e seguradoras, a falta de clareza sobre quais serão exatamente as políticas adotadas é um fator complicador.

Estudo estima perdas financeiras de pelo menos 4,5 bilhões de euros com risco da mudança climática

Além do primeiro teste de estresse em 2018, foi realizado um segundo estudo para estimar as perdas financeiras dos Países Baixos em consequência de riscos físicos e de transição do clima, com informações mais detalhadas sobre a exposição de cada setor da indústria.

Assumindo como hipótese que a União Europeia adote um imposto de € 100 por tonelada de carbono como parte da política de transição para uma economia de baixas emissões de poluentes, o estudo encontrou que o sistema financeiro holandês poderia perder entre € 4,5 bi e € 35,8 bi, a depender de como a política climática fosse implementada.

Mais de 80% dessas perdas viriam de cinco setores da indústria: energia, produção de combustíveis fósseis, transporte hidroviário, produção de metais básicos e transporte aéreo.

Para saber mais sobre como supervisores e instituições privadas no sistema financeiro estão lidando com a mudança climática, confira:

Carta Propague #2 Sustentabilidade no sistema financeiro: tendências regulatórias e evolução do mercado

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